sábado, 24 de novembro de 2012

O Retrato de Dorian Gray

   Seria a beleza algo subjetivo? A beleza é a qualidade do que é belo; quando buscamos a definição de belo, várias são as possibilidades: 1. aquilo que tem formas e proporções harmônicas, 2. aquilo que causa admiração, 3. aquilo que é vantajoso, lucrativo, 4. aquilo que tem elevado valor moral, 5. aquilo que é notável pela quantidade, pelo número, etc.. Em uma destas definições do Houaiss, existe uma associação de beleza e moral. Aquilo que não é belo, portanto, seria imoral, ou amoral? E quando se tenta entrelaçar beleza e ser humano, o que definiria 'proporções harmônicas'? O que 'causaria admiração'? E esta exemplificação é comum a todas as pessoas? O grande poeta Vinícius de Moraes já escreveu um texto de importante valor literário sobre a beleza, e já inicia tal texto desculpando-se pela possibilidade da não-beleza... Vejamos:


Vinicius de Moraes (1913-1980)


Receita de mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socializa elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

   Ao longo do texto, percebemos uma indecisão do poeta; ora a beleza é harmônica, sem excessos, ora é perfeição, completa! De qualquer modo, parece que a beleza denota equilíbrio por meio da referida receita...
   Existiu um outro indivíduo que dramatizou sobre o papel da beleza. Quando o seu livro foi lançado no século XIX, foi duramente criticado pela sociedade inglesa vitoriana da época. A estas críticas, ele acrescentou um prefácio tentado explicar o papel da arte e do livro em uma edição seguinte; para ele, a arte deveria servir ao único propósito da arte, não tendo nada com moralidade, não podendo, portanto, ser imoral ou amoral; seria, tão somente, arte. É o que passou a ser descrito como 'a arte pela arte'. Fazendo parte de uma corrente conhecida por 'aesteticismo', a arte deveria ter um valor intrínseco próprio, que é belo e, portanto, válido, e assim não necessitaria servir a nenhum outro propósito, quer seja moral ou político. O nome do indivíduo? O grandioso Oscar Wilde. O nome do livro? O fascinante O Retrato de Dorian Gray.
   Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde nasceu em Dublin, na Irlanda, em 16 de outubro de 1854. Foi educado no Trinity College, em Dublin, e no Magdalen College, em Oxford, tendo passado a viver em Londres, onde se casou com Constance Lloyd, em 1884. No mundo literário da Londres Vitoriana, Wilde fez parte do grupo artístico que incluiu o grande poeta irlandês W.B. Yeats e a senhora do príncipe de Gales Lillie Langtry. Um grande conversador e famoso sagaz, o autor começou a carreira com trabalhos poéticos medíocres, mas rapidamente atingiu o sucesso como dramaturgo. A primeira de suas peças, Vera, ou The Nihilists, foi publicado em 1880. Seguiram-se, a este, outros trabalhos, como Lady Windermere's Fan (O leque de Lady Windermere), de 1892, A Woman of No Importance (Uma Mulher Sem Importância), de 1893, An Ideal Husband (Um Marido Ideal), de 1895, e a mais famosa de suas peças, The Importance of Being Earnest (A Importância de Ser Prudente), também de 1895. Estas peças apresentavam enredos simples e familiares, mas tornaram-se grandes pelo diálogo brilhante e pela sátira cortante.


Oscar Wilde (1854-1900)

   O seu único romance, The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray) foi publicado inicialmente em 1890 na Lippincott's Monthly Magazine, portanto antes do auge de sua fama como autor, poeta ou dramaturgo. Foi duramente criticado ao lançamento desta primeira edição, tendo sido considerado escandaloso e imoral, conforme anteriormente descrito. Desapontado com as críticas, cria um prefácio (tentado explicar o papel da arte) e adiciona seis novos capítulos na edição seguinte, lançada em 1891. Para a Inglaterra Vitoriana da época, a arte deveria servir à moral e reforçá-la. Parte romance gótico e parte comédia de costumes, O Retrato de Dorian Gray continua a se apresentar aos seus leitores como uma espécie de quebra-cabeça a ser resolvido. Há, mesmo hoje em dia, tamanho desacordo no significado da obra como houve na sociedade vitoriana do século XIX; mas, como escreve o próprio autor no final do prefácio: 'A diversidade de opinião sobre uma obra de arte demonstra que tal trabalho é novo, complexo e vital.'
   Em 1891, o mesmo ano em que a segunda edição do livro foi lançada, Wilde começou uma relação homossexual com o aspirante a poeta Alfred Douglas. O relacionamento foi um escândalo, e o pai de Alfred, o marquês de Queensberry, o criticou publicamente. Quando Wilde o processou por difamação, o próprio autor foi condenado, segundo as leis inglesas de sodomia, de 'atentado violento ao pudor'. Em 1895, o autor foi condenado a dois anos de prisão e trabalhos forçados, período em que escreveu uma longa e dolorosa carta a Alfred, intitulada De Profundis ('Das Profundezas'). Após sua libertação, em 1897, passou a viver entre a França e a Itália, agora na pobreza. Jamais publicou em seu próprio nome de novo (somente com pseudônimo). Morreu em Paris em 30 de novembro de 1900 (vítima de meningite, tendo sido esta agravada por seu quadro de sífilis; as reais causas da morte divergem um pouco entre os biógrafos). Wilde foi inicialmente enterrado no Cemitério de Bagneux, fora de Paris, mas seu corpo foi posteriormente transferido para o Cemitério do Père Lachaise, dentro da cidade. Sua tumba foi projetada pelo escultor Sir Jacob Epstein, a pedido do maior amigo do autor, Robert Ross, que requisitou que também existisse um compartimento na tumba para seus próprios restos, que foram para lá transferidos em 1950. Em nossa viagem à França em junho de 2010, visitamos o seu túmulo; existem milhares de marcas de baton (formando imagens de beijos e corações), além de dezenas de dedicatórias de fãs de todo o mundo. Você parece gostar mais do autor quando está ao lado de sua imponente tumba...


Túmulo de Oscar Wilde, no Cimetiere du Pere Lachaise, em Paris, França

   No romance, destacam-se alguns personagens interessantes. Dorian Gray, logo no início da obra, apresenta-se como um ideal: ele é o arquétipo da beleza e juventude masculina. Como tal, ele rouba a imaginação de outros dois personagens: Basil Hallward, um artista plástico, e Lord Henry Wotton, um nobre que imagina levar o impressionável Dorian a se torna um buscador do prazer incessante (para mim, este nobre é a pura representação do próprio autor). Dorian é extremamente vaidoso, e numa conversa com Henry é rapidamente convencido de que suas maiores qualidade, a juventude e a atração física, estão diminuindo progressivamente conforme sua vida segue. O simples pensamento de que irá acordar um dia sem tais atributos o atinge em cheio, e o angustia profundamente; ele amaldiçoa, assim, o seu destino e clama, do fundo de sua alma, pela possibilidade de poder viver sem apresentar os encargos físicos do envelhecimento e sem pecados. Ao ver a belíssima obra-prima de Basil, o perfeito retrato de Dorian, ele deseja que pudesse ser igual à pintura eternamente, e que o personagem da tela pudesse envelhecer em seu lugar. A sua vulnerabilidade nesse momento o torna uma massa de modelar perfeita nas mãos irascíveis de Henry. Logo Dorian assume uma vida de hedonismo sem apego a convenções morais. Sua nova filosofia é posta à prova quando se apaixona pela atriz Sibyl Vane; o romance tem fim e expõe a superficialidade de seus sentimentos em relação a ela, tal como sua vida após a adoção do hedonismo. O fim trágico da jovem o faz perceber a primeira modificação na imagem do quadro em sua residência. Ele passa, então, por um momento de crise profunda; mas, preferindo enxergar a morte de sua 'amada' como a realização de um ideal artístico, em vez de uma tragédia desnecessária pela qual ele teria sido responsável, Dorian começa a descer uma encosta íngreme em uma queda bastante escorregadia em direção ao seu próprio fim.


O Retrato de Dorian Gray (capa com um desenho do grande pianista húngaro Franz Liszt)

   Os pecados de Dorian passam a ser mais frequentes e importantes ao longo da estória, e o seu retrato vai se tornando mais hediondo. A narrativa segue apresentando um Dorian que parece não ter uma autoconsciência, entregando-se a momentos de prazer extremo incessantemente sem autocrítica; entretanto, há um momento de arrependimento, e o autor tenta lembrar ao leitor de que o personagem idílico é, na verdade, humano. A morte de Basil marca o início premente do fim do personagem principal; enquanto no passado ele conseguia varrer infâmias a seu respeito, o fato de ter assassinado o seu amigo consome demasiadamente sua mente. A sua culpa é sentida de forma cabal, e Dorian é obrigado a acabar com o próprio retrato. A moral do final da estória é que Dorian parece ter sido punido por sua capacidade de ser influenciável; se esta influência de Henry, que celebra a nova ordem da sociedade como vangloriando o individualismo, está correta, o próprio Dorian vacila, pois ele não consegue estabelecer seu próprio código moral e viver por este.
   Os temas da obra são bastante explícitos. Um deles é o propósito da arte; conforme descrito previamente, na segunda edição do livro, lançada após duras críticas de imoralidade recebidas após o lançamento da primeira edição, o autor apresenta um prefácio cheio de epigramas, e defende a teoria aesteticista, segundo a qual o propósito da arte é não ter propósito ('a arte pela arte'). A essência do livro demonstra justamente que a arte não deve ter um papel de engrandecimento moral, como é percebido em obras de outros autores famosos, dentre eles o inglês Charles Dickens (que viveu durante o século XIX). Outro tema é o da supremacia da juventude e da beleza; o primeiro princípio do aesteticismo, filosofia de arte adotada por Wilde, é de que a arte serve somente para apresentar-se como arte, como beleza - ao longo do livro, a beleza reina absolutamente. É a bela pintura que desperta a mente cansada do cínico Lord Henry, e também apresenta-se como um meio de fuga às aberrações e brutalidades do mundo: Dorian se distancia de si mesmo, dissolve e superficializa sua autoconsciência, e se afasta também do horror de suas ações, dedicando-se ao estudo do belo em músicas, jóias, tapeçarias raras, etc.. Em uma sociedade que premia a beleza tão intensamente, a juventude e a atração física se tornam comodidades valiosas. Logo no começo da obra, numa das primeiras conversas entre Henry e Dorian, aquele lembra que em breve este perderá todas os seus atributos mais preciosos, e bem depois da metade do livro, o próprio Henry é lembrado da grande importância que ele põe nestes atributos, na forma em si, e a derrota final de Dorian confirma isto; no fim, embora a juventude e a beleza se mantenham com a maior importância mesmo nas últimas páginas (o retrato acaba voltando à sua forma inicial), o romance sugere que o preço que se deve pagar por estes é extremamente alto - Dorian paga com nada menos que sua alma. Um outro tema é o da natureza superficial da sociedade; não é nenhuma surpresa que uma sociedade que prima pela beleza sobre todas as outras coisas é, de fato, extremamente superficial. O que é importante para Dorian, Henry e a maioria dos membros da sociedade apresentada no livro não é a bondade autêntica, mas o charme dos indivíduos. Como Dorian evolui na realização de um tipo, a mistura perfeita de estudiosos e socialites, ele experimenta a liberdade de abandonar seus costumes sem qualquer censura. Na verdade, mesmo quando a elite da sociedade questiona seu nome e sua reputação, Dorian nunca é condenado ao ostracismo; muito pelo contrário, apesar de seu 'modo de vida', ele permanece no coração da cena social londrina por causa de sua 'inocência' e da 'pureza de seu rosto'. Ainda, um outro tema é o da consequência negativa das influências; a sua pintura e o 'livro amarelo' (que Dorian ganha de Henry) influenciam o personagem principal profundamente, levando-o a comportamentos imorais por quase duas décadas no curso do livro. A idolatria que Basil presta a Dorian leva à morte daquele, e a influência de Henry sobre Dorian acaba levando este a um fim também trágico. De forma interessante, não é de se estranhar que em uma obra no qual se apresenta a exacerbação do individualismo, o sacrifício próprio, mesmo que em relação a outra pessoa ou em relação a uma obra de arte, acabe levando a própria destruição.


Cena do filme Dorian Gray, adaptação do livro, de 2009

   Quanto aos motivos, destacam-se alguns. Dentre os mais importantes, a pintura de Dorian Gray, descrito como o 'mais mágico dos espelhos', apresenta ao personagem a sobrecarga física da idade e os pecados de que ele foi poupado (por um tempo, Dorian deixa sua consciência de lado e vive somente por um objetivo, que é o de sentir prazer, mas sua imagem pintada o segue como a voz de sua consciência, e lá ele enxerga os horrores de sua alma, como as tragédias que recaem sobre Sibyl Vane e sobre Basil Hallward). Outro motivo é o das ligações eróticas homossexuais masculinas; estas ligações desempenham um importante papel na estrutura do romance: a pintura criada por Basil depende de sua adoração pela beleza de Dorian; de forma similar, Lord Henry é vencido pelo desejo de seduzir Dorian e moldá-lo para a realização de um tipo. Esta camaradagem entre os homens na obra se encaixa num valor estético maior do próprio Wilde; para este, a homossexualidade não era um vício sórdido, mas um sinal de cultura refinada. Em uma sociedade intolerante, o autor tentou apresentar esta filosofia numa tentativa de justificar a própria homossexualidade.
   Três instigantes símbolos são apresentados ao longo do livro. Um deles são os antros de ópio; estas casas, situadas em um lugar remoto e abandonado de Londres, representam o estado de espírito de Dorian. Ele foge para eles em um momento crucial do romance, exatamente após ter assassinado Basil, e assim tenta esquecer o horror deste crime perdendo sua consciência em um estupor induzido pela droga; o que é interessante é o fato de que, apesar de possuir a droga em casa, ele foge para um lugar sombrio onde encontra a droga e isto reflete perfeitamente a degradação de sua alma. Outro símbolo é o do irmão de Sibyl Vane: o personagem James Vane. No livro, ele é menos um personagem crível do que uma incorporação da consciência torturada de Dorian. Representando o irmão vingativo de Sibyl, ele aparece para lembrar ao pobre Dorian das contas que deverá pagar em um momento de sua vida pelos crimes cometidos. Um último símbolo muito interessante é o livro amarelo que Lord Henry dá de presente a Dorian. Wilde o descreve apenas como um romance francês que apresenta as experiências ultrajantes do seu protagonista na busca pelo prazer; o livro se torna uma escritura sagrada para Dorian, que compra aproximadamente doze cópias do mesmo e passa a viver sua vida baseada nos seus ensinamentos e exemplos. O livro representa a influência profunda e perigosa que a arte pode apresentar sobre um indivíduo e serve como um alerta para aqueles que se renderem tão completamente à sua influência.


Outra cena do filme Dorian Gray, aqui apresentando uma atmosfera marcante ao longo do livro (cinza, sombrio)

   Apresentando-se de forma sombria e gótica, este livro definitivamente lançou Oscar Wilde aos confins do universo e permitiu que sua retórica envolvesse toda a existência. Com temas de discussão universal, expõe o que acontece quando não se procura o equilíbrio nas coisas: buscar o prazer excessivo em tudo e todo o tempo ou, por outro lado, conduzir-se de forma muito superficial, não são valores concretos que devem ser buscados e aplicados. Com muitos aforismos, quase que em cada página do livro, é uma obra fascinante que serve como um 'tapa na cara' da sociedade elitista e deve ser descoberto no mais profundo sentido de absorção de uma excelente Literatura. Uma boa semana a todos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Impressão, Sol Nascente


   Há muito que as paisagens fascinam o imaginário humano, principalmente porque são objetos de contemplação que existem naturalmente nos diversos lugares pelo planeta. Não há necessidade de intervenção do homem para que se tornem belas ou harmoniosas; muito pelo contrário, a nossa interferência na grande maioria das vezes torna o panorama em algo, no mínimo, disforme. Em especial, as paisagens noturnas e as que ocorrem no instante fugaz do nascer e do por do sol são as que mais geram sensações de felicidade extrema, e são momentos que podem jamais voltar à vida de cada um de nós de forma semelhante a como pareceu um dia. Em particular, durante o nascer do sol e o por do sol, aparecem cores no céu que são difíceis de nomear na linguagem humana; existem cores que lá aparecem que podem nunca terem sido descritas. 
   Existem dois exemplos de paisagem celeste que foram magistralmente apresentados em dois grandes filmes. O primeiro, romântico por excelência, o apresentou em uma das cenas mais romanescas em toda a história do cinema. Na cena de Titanic em que o casal Jack e Rose se encontra na proa do navio, sob uma versão esplêndida de My Heart Will Go On, inicialmente ao piano, durante o entardecer (o último que um deles veria), o céu aparece como uma paleta de cores tão deslumbrante que parece não ser real... É uma das cenas mais marcantes do cinema! Obviamente, o filme foi amplamente reconhecido pela Academia!


Filme Titanic, cena da proa do navio!





   O segundo filme, Vanilla Sky, de 2001, tem o título baseado numa obra do artista plástico Oscar-Claude Monet, intitulada The Seine at Argenteuil (ou O Sena em Argenteuil), de 1873. Apesar do filme ser uma regravação de um filme espanhol de 1997, chamado Abre Los Ojos (Open Your Eyes), o título da versão americana faz alusão ao céu marcante e onírico do quadro específico citado (mas que é observado em várias das obras do artista) e que, no filme, é justamente a conexão entre o que parece ser real e o que parece ser somente um sonho, e é esta a temática que recheia toda a duração desta belíssima película. A cena final, no alto de um prédio, tem um céu tão espetacular que, da mesma forma como comentado anteriormente, é difícil descrever quantas cores existem acima! É altamente fascinante e comovente, e parece trazer uma calma perseguida durante todo o filme pelo personagem de Tom Cruise (David Aames), mas somente alcançada no final do filme, como se fizesse tudo fazer sentido!


The Seine at Argenteuil, de Monet (1873)


Cena final de Vanilla Sky

Cena final de Vanilla Sky

Cena no início do sonho lúcido, em Vanilla Sky




   
   O 'céu de baunilha' de Monet é algo espetacular, sendo difícil acreditar que pudesse ser representado por alguém em uma tela; mas basta observar outras de suas obras para perceber a importância que ele dava às cores, havendo sempre uma apresentação perfeita das cores no céu e da luminosidade sobre os personagens representados. Foi tão marcante para mim que a partir de então passei a analisar com mais calma e mais cuidado as diversas cores no céu em vários momentos subsequentes, tanto quanto possível; além disto, tornei-me grande apreciador da obra do artista, e era muito interessante perceber a harmonia existente na maioria de seus quadros, representando o efêmero de forma tão perfeita, como uma foto de um momento único do dia, que pode nunca mais ser visto... Além do que, a paz transmitida alivia qualquer alma!


The Bridge at Argenteuil, de Monet (1874)

The Artist's House At Argenteuil, de Monet (1873)

Poppies at Argenteuil, de Monet (1873)

Argenteuil, Late Afternoon, de Monet (1872)

Regatta at Argenteuil, de Monet (1872)

Madame Monet and Her Son, de Monet (1875)

Cliffs and Sailboats at Pourville, de Monet (1882)

Hôtel de Roches Noires, Trouville, de Monet (1870)

   Em junho de 2010, estivemos na França, eu e Carol, e pudemos entender um pouco de onde surgia tanta inspiração para a criação da obra de Monet. Visitamos sua casa, na cidade de Giverny, que fica a 80 km de Paris, e que contém os belíssimos jardins na chamada 'casa de Monet'. Os jardins são tão inacreditáveis que existem centenas de espécies de flores, as sublimes ninfeias que tanto fascinavam o artista, as sutis pontes japonesas e é difícil caminhar e completar todo o circuito porque a caminhada flui muito lentamente, sendo difícil não ir tirando foto de cada flor, cada detalhe dos jardins, dos lagos, das paisagens, etc.. E tudo por lá é tão bem preservado, bem cuidado, que comove cada um de nós, ao mesmo tempo que nos convida a observar cada sutil nuance da beleza do lugar. A pequena cidade tem menos de 600 habitantes, quase que somente uma rua, comporta ainda o Museu dos Impressionistas e uma igreja da Idade Média que abriga o túmulo do artista. É um lugar que deixa muitas boas lembranças e parece apresentar a felicidade como presente nas pequenas coisas...


Jardim de Monet


Jardim de Monet


Jardim de Monet


Carol na Ponte Japonesa


Ponte Japonesa


Jardim de Monet


Jardim no Museu dos Impressionistas


   Mas dentre todos as grandiosas telas do artista, a que mais me chamou a atenção desde o primeiro momento foi, sem dúvida, Impressão, Sol Nascente (Impression, Sunrise; no original: Impression, soleil levant). Datada de 1872, o quadro representa o porto de Le Havre, na França, e apresenta uma característica um tanto pioneira de pinceladas soltas que mais sugerem do que delimitam os diversos objetos na paisagem. Apresentado na amostra que daria origem ao movimento dos Impressionistas, em 1874, não tinha ainda o título que o consagrou quando foi enviado para esta exposição; quando perguntado sobre que título deveria ser colocado, Monet explicou o mesmo da seguinte forma: 'paisagem não é mais do que uma impressão, e uma impressão instantânea; eu tinha enviado algo que havia pintado observando a janela do meu quarto em Le Havre, com o sol na névoa e uns barcos com mastros apontando para cima em primeiro plano... Pediram-me que desse um título; eu disse: - coloque Impressão'. Inspirado pelo nome da tela, e pela comoção causada nele ao contemplá-la na exposição, o crítico Louis Leroy escreveu sobre esta amostra no jornal Le Charivari, tendo intitulado a crítica de 'A Exibição dos Impressionistas', e, assim, inadvertidamente, nomeado o movimento que surgia a partir de então. Ele escreveu: 'Impressão - Eu estava certo disto! Eu dizia para mim mesmo que, como eu estava impressionado, deveria haver alguma impressão nele... Que liberdade! Que felicidade de trabalho humano! Um papel de parede em seu estado embrionário é mais acabado que aquela paisagem marinha!' Assim, Monet ganhava o mundo, e entraria para a história como a essência do Impressionismo!


Impressão, Sol Nascente, de Monet (1872)


   Oscar-Claude Monet nasceu em 14 de novembro de 1840, em Paris, e mudou-se para Le Havre, na Normandia, aos 5 anos com sua família; inicialmente, deveria cuidar dos negócios com seu pai (ramo de Mercearia), mas preferiu, desde cedo, dedicar-se a ser um artista. Aos 11 anos de idade, entrou na Escola Secundária de Artes de Le Havre, mas foi somente com 16 anos que, pelas praias da Normandia, conheceu seu mentor Eugène Boudin, que o ensinou a criar telas ao ar livre ('ein plein air'). Pouco após a morte de sua mãe, em 1857, ele voltou para Paris. Nesta cidade, conheceu inicialmente Édouard Manet, e, após ter passado a fazer parte das aulas com o professor Charles Gleyre, um artista plástico suíço que vivia em Paris e influenciou parte da geração de Impressionistas, Monet conheceu outros artistas que fariam história nesta corrente, quais sejam Pierre-Auguste Renoir, Frédéric Bazille e Alfred Sisley. Juntos, estes artistas compartilharam novos estilos de pintura, caracterizados essencialmente por cores interrompidas e pinceladas rápidas dos efeitos da luz ao ar livre, o que posteriormente se consolidou como o Impressionismo. Casou-se com Camille Doncieux em 1870 pouco antes do desencadeamento da Guerra Franco-Prussiana, que o obrigou a fugir para a Inglaterra e, posteriormente, Holanda. Voltou à França em 1871 e, até 1878, viveu em Argenteuil, cidade em que pintou boa parte de suas melhores obras. Camille faleceu em 1879 de complicações decorrentes de tuberculose e Monet passou os últimos dias de sua vida em Giverny, onde pintou a maioria de suas obras do final do século XIX e início do século XX. Por volta de 1914, passou a apresentar sintomas de catarata e, após correção cirúrgica desta, passou a visualizar uma tonalidade violeta em muitas paisagens e flores onde esta cor não existe de fato, e suas ninfeias azuis, por exemplo, ganharam uma tonalidade mais escura devido a este fato (as obras são belíssimas). Monet faleceu em 5 de dezembro de 1926, aos 86 anos, de complicações de câncer de pulmão.


Oscar-Claude Monet

Pierre-Auguste Renoir

Charles Gleyre

Alfred Sisley

Frédéric Bazille
Édouard Manet


   Este quadro de Monet tem sido considerado, ao longo dos anos, um símbolo quintessencial do Movimento Impressionista. O quadro, representando uma visão do porto de Le Havre, no noroeste da França, é considerada uma das mais poéticas expressões do artista no engagamento com a revitalização do país após a Guerra Franco-Prussiana, que, apesar de ter durado somente um ano, foi suficiente para levar à derrota francesa e pôr fim ao Império de Napoleão III, que teve que devolver o território da Alsácia-Lorena para o Reino da Prússia. Os desfechos da guerra para a França foram muito mais profundos, tendo levado a um dano substancial do ponto de vista social e moral. Impressão, Sol Nascente enfatiza fortemente a determinação francesa em reconstruir e se recuperar da devastação da guerra; a partir da década de 1850, o porto de Le Havre cresceu paulatinamente até se tornar o segundo maior do país - a inclusão de alguns barcos maiores na tela corroboram tal fato. Este crescimento estagnou durante a guerra e voltou a se reerguer na década de 1870, época em que foi representada por Monet; percebe-se um testemunho da recuperação pós-guerra ao se optar por representar este porto em uma tela naquela época. A nebulosidade observada ao fundo se deve não somente às brumas da manhã no canal, mas também às emissões produzidas pelas fábricas e pelos navios a vapor. A maquinaria pesada perceptível na obra de arte era parte de um projeto de construção que foi retomado após o armistício assinado entre a França e a Prússia. Esta representação na cena pode ser interpretada como uma fonte de inspiração para o povo francês ressurgido. 
   Impressão, Sol Nascente apresenta um enfoque sobre o sentimento acerca de uma calma cena marítima enevoada. A tela restitui o sentimento de algo efêmero unido a uma determinada hora da manhã, não definida, em que a fumaça contamina a cor das nuvens e os mastros se tingem com as cores da água. Pela primeira vez, um artista plástico transcreveu mais por sinais do que por imagens. A presença humana é apenas intuída (os pescadores, no centro e mais abaixo na tela, mais próximo ao espectador, são representados de modo esquemático, com eles a remar em suas embarcações, muitos dos quais não sendo mais do que pinceladas soltas; somente o timoneiro surge com mais detalhes). O sol é destacado graças à intensidade cromática que Monet imprime a este elemento, adicionando zarcão e amarelo ao laranja primitivo; além da cor, as pinceladas criam um volume que permite delimitar com perfeição a esfera solar, e a névoa que permeia a tela impede que a irradiação distorça a esfera (o sol parece ser o único elemento na tela que tem uma forma bem definida). Os reflexos do sol na água se limitam a uma estreita faixa, feita com pinceladas horizontais de cor laranja que vão se espaçando à medida que se aproximam do observador; os raios do sol, por outro lado, parecem impregnar todo o céu com tonalidades amarelo-alaranjadas. A embarcação situada ao centro da tela, único elemento da tela não coberto pela névoa, funciona para criar perspectiva, posicionando os outros dois barcos, por intuição, atrás dela; juntos, criam uma diagonal que confere profundidade à tela. O artista cria uma bruma que envolve quase toda a tela à base de cinzas fundidas com pinceladas de malva que aplica em pinceladas largas e soltas; trata-se mais de sugerir a presença da bruma do que transmitir uma presença real dentro da tela - em certas zonas se intui, além disto, o fundo branco, o que dota o conjunto de luminosidade.
   Por ser considerada a obra de arte que deu origem ao Movimento Impressionista, podem ser observados claramente alguns detalhes específicos desta tela que fazem alusão ao estilo. Uma característica importante da pintura impressionista é o tipo de pincelada utilizada; movimentos curtos e grossos de tinta são aplicadas à tela para capturar rapidamente a essência do assunto; as pinceladas visíveis na água de Impressão, Sol Nascente criam uma sensação de ritmo que reflete a impressão de movimento do mar. Outra característica da pintura impressionista é a aplicação de cores distintas lado a lado, e o olho do espectador as mistura automaticamente - esta técnica é evidente nas porções do céu e da água neste quadro. Por fim, os artistas impressionistas dão uma forte ênfase à luz natural, e isto é muito evidente na obra de Monet; em Impressão, Sol Nascente, observa-se o belo trabalho da reflexão da luz solar. A reputação do artista como pintor envolve amplamente o reconhecimento deste efeito, e Monet é o incomparável pintor da luz.
   Ao longo destes dois séculos, as pessoas têm estado certas de que Impressão, Sol Nascente foi a obra-prima que inspirou um dos maiores movimentos da arte: o Impressionismo. Entretanto, alguns estudiosos têm especulado recentemente que este talvez não tenha sido o quadro que inspirou o movimento de fato. Estes pesquisadores da arte afirmam que a descrição dos críticos presentes à exposição naquela época não são compatíveis com esta tela, mas com uma outra: Sunrise (Marine). Este quadro parece ter sido criado por volta da primavera de 1873, o que o coloca próximo a Impressão, Sol Nascente em termos de época de criação. Parece que o alvo das palavras de Louis Leroy, aquele crítico do jornal Le Charivari, foi confundido por todo esse tempo, e que sempre foi Sunrise (Marine); esses estudiosos afirmam que este quadro foi aquele exposto na primeira exibição dos impressionistas, em 1874, enquanto Impressão, Sol Nascente, teria sido exibido somente em 1879, na quarta exposição dos artistas. Eles afirmam, também, que Impressão, Sol Nascente não retrata um sol nascendo, mas um sol se pondo, o que poderia ser denunciado pelo aspecto da névoa; já Sunrise (Marine) claramente apresentaria um sol nascendo, e corresponderia à descrição do jornal e dos críticos da época. 


Sunrise (Marine), de Monet (1873)


   Embora não se saiba o real teor do poder do movimento à época em que surgiu, o fato é que, atualmente, não existe qualquer dúvida quanto ao grande impacto que o Impressionismo teve no mundo da arte. O pincel que Monet eternizou em seus quadros o tornou o chefe do movimento e é responsável por muito da notoriedade e do sucesso do grupo. Sua obra-prima, Impressão, Sol Nascente, com somente 48x63 cm, e que descansa no Museu Marmottan, em Paris (França), foi a vanguarda da expressão de uma percepção da natureza e que se tornaria a essência do Impressionismo. A abordagem do artista para pintar os sentimentos emitidos por uma cena, em vez de detalhes exatos, abriu caminho para avanços na técnica que levaram à evolução da arte moderna. Não se consegue não sentir a expressão de um sentimento de calma e tranquilidade nos quadros de Monet, e Impressão, Sol Nascente é, há muito, a expressão de um momento sublime e o meu retrato preferido deste imenso artista! Uma boa semana a todos!
   


sábado, 10 de novembro de 2012

Imensidão Azul

   A cor azul tem, há muito, uma importância especial para mim. Sempre que se remete tanto ao termo em si quanto à cor, parece que em mim se desperta uma emoção mais verdadeira, uma espécie de fascinação. Muitas coisas belíssimas são azuis: nosso planeta é azul, o mar mais bonito é azul (apesar de a água ser transparente), o céu azul é mais bonito do que o cinza, a borboleta azul é mais bonita, a flor azul é mais rara (o lírio francês azul é surreal), a baleia azul é o maior e mais fascinante mamífero do planeta (apesar de não ser azul...), o céu azul dos quadros de Monet é uma das coisas mais belas que já pude visualizar (e o que dizer de suas ninféias azuis? Impressionante!), etc. A cor azul é geralmente relacionada a tristeza, depressão, mas também à ordem, à paz e à harmonia. Esta última característica é bem verdade, por exemplo, quando você está diante do mar num dia claro, com tudo azul, a contemplá-lo. Nando Reis, grande músico do nosso país, já disse em uma de suas músicas: 'Quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor...'. Concordo plenamente com isto!


Borboleta azul


Rosa azul


Mergulhador, baleia e mar azul

   Sendo o azul a minha cor preferida, a sua maior conotação para mim se apresenta em paisagens com o mar, e, obviamente, o céu que o envolve. Músicas que tratam do mar, portanto, são capazes de me inspirar profundamente, e me deixam um pouco mais felizes no exato momento em que as escuto. Uma das mais bonitas é a francesa que tem o mar em seu título: La Mer. Esta música foi composta pelo francês Charles Trenet em 1943 enquanto este viajava em um trem que cobriu a costa francesa do lado mediterrâneo, indo de Paris a Narbonne. Já foi gravada em várias línguas, por vários artistas, tendo sido apresentada em inúmeros filmes e programas de TV desde seu lançamento em 1946. Sua versão em inglês, entitulada Beyond The Sea, também tem sido muito ouvida e regravada desde que foi criada por Jack Lawrence. Deixo ambas as versões abaixo (da versão original, em francês, o primeiro vídeo é cantada pelo próprio compositor, Charles Trenet, e é muito poética, como se saída de um velho vinil; a segunda, é cantada por Dalida, e resolvi colocá-la por conter legenda em português; da versão em inglês, deixo a cativante versão para o grande filme Procurando Nemo, interpretada por Robbie Williams). São músicas, como já descrevi, muito inspiradoras!











   Em setembro de 2009, viajamos em férias para Jericoacoara, no Ceará, e para Tibau, no Rio Grande do Norte. Foram viagens inesquecíveis, e ver o sol se pôr no mar do alto da 'Duna do Pôr-do-Sol', em Jeri, é algo indescritível. Muitas paisagens contemplativas trazem uma paz interior capaz de levar a profundas reflexões. Lembro-me bem de que Jeri continha somente 4 ruas, não calçadas ou asfaltadas, sem iluminação pública (a iluminação das ruas à noite se dava pela iluminação que vinha das próprias casas e estabelecimentos; como uma vila de pescadores), com uma padaria que abria somente de madrugada, com shows de Forró nas pousadas ou barracas à beira-mar, e que ficava escondida e afastada de Fortaleza, a capital do Ceará, e seu acesso não pode ser feito por carro de passeio normal (lá só se chega em carros com tração nas quatro rodas, de bugres ou jardineiras). Apesar de ter visitado aquele lugar paradisíaco, a maior lembrança que tenho daquelas férias foi o último fim de semana; fomos eu, meu pai, minha mãe e Pandora (nossa cadela) para nossa casa na praia em Tibau. No último dia em que ficamos lá, resolvemos acordar na madrugada, eu, minha mãe e Pandora, para irmos até a beira-mar ver o nascer do sol. Acordamos com o céu ainda escuro, algumas estrelas no céu, e, apesar de nossa casa ficar a alguns passos do mar, saímos de casa sem conseguir vê-lo, mas somente ouvi-lo. Ficamos numa barraca e esperamos a natureza seguir seu curso... O que foram aqueles momentos, eu consegui registrar muito parcialmente na segunda parte do vídeo abaixo! Só me veio uma música à cabeça enquanto o sol nascia: Sunrise, Norah Jones. O vídeo que fiz daquela viagem contém fotos na primeira metade e este dia em Tibau, em vídeo, na segunda metade! Jamais vou esquecer daqueles dias. Espero que gostem (só peço desculpa por não ser nenhum profissional com a câmera, por não ter um estabilizador de imagem na época e pela qualidade, que teve que ser reduzida para gerar um vídeo de menor tamanho para que pudesse enviar para a net)!




   Este último dia da viagem me levou à seguinte reflexão: apesar de na maioria das vezes, em nossas vidas, estarmos passando por momentos de pura felicidade, que não voltam, e que só percebemos quando ele já passou, e que estes momentos geralmente são os mais simples, algumas vezes coisas inesquecíveis acontecem quando você menos espera por achar que o melhor já passou, como nos momentos mais finais das férias ou de uma viagem, de um encontro com os amigos, o final de um livro, o final de uma música, etc..
   Fazendo uma reflexão mais consistente, seria difícil precisar quando o azul e o mar passaram a ter uma maior importância para mim, ou, mais pontualmente, quando foi que isto tudo começou. Voltando no tempo, poderia dizer que duas coisas foram essenciais, tendo influenciado grandemente este gosto particular; em primeiro lugar, tenho recordações de meu pai cantando para eu dormir lá longe, na infância, e uma música que certamente exerceu um grande papel foi Mucuripe, de Belchior (esta música tem uma conotação nostálgica, calma e onírica do mar, tendo moldado muito esta minha relação com o mesmo); em segundo lugar, em algum lugar da década de 1990, assisti a um filme que, sem dúvida alguma, gerou a maior parte dos sentimentos que tenho pelo azul e pelo mar: Imensidão Azul (Le Grand Bleu), de Luc Besson, filme lançado em 1988. Este sim, repito, construiu toda a minha referência do mais belo do mar e do azul, sendo um dos filmes mais oníricos e transcendentais a tratar do tema.





Cartaz do filme 'Imensidão Azul'




   O filme foi a maior bilheteria na França na década de 1980, tendo permanecido em cartaz por 1 ano naquele país (de quantos filmes que saem hoje em dia você consegue imaginar o mesmo?). É um filme que trata da rivalidade e amizade que existiu na vida real entre dois campeões do mergulho livre, Jacques Mayol e Enzo Maiorca. O primeiro nasceu em Xangai, na China, mas naturalizou-se na França; foi o primeiro a ultrapassar, no mergulho livre, a profundidade de 100m (em 1976 atingiu 101m em Elba, na Itália), e chegou aos 105m em 1983. Foi um mergulhador que ajudou a evolução de pesquisas na fisiologia do corpo humano no mundo subaquático (no seu mergulho em que ultrapassou os 101m, a sua frequência cardíaca chegou a 27 batimentos por minuto  no ponto mais profundo, sendo inicialmente de 60 quando na superfície, fato observado como uma espécie de 'reflexo do mergulho em mamíferos' também em mamíferos marinhos, como baleias, golfinhos). Ele tinha uma fascinação por golfinhos e desenvolveu uma filosofia de vida que apresentou em seu livro, intitulado L'Homo Delphinus, em que tenta buscar um sentido na relação do homem com o mar. Ele cometeu suicídio em 22 de dezembro de 2001 (foi encontrado enforcado em sua casa na ilha de Elba); sofria de depressão e suas cinzas foram jogadas sobre a costa da Toscana, na Itália. O segundo é ainda vivo e natural de Siracusa, na Itália, e foi o grande rival e amigo em vida do primeiro, tendo batido 13 recordes mundiais em profundidade no mergulho livre entre 1960 e 1974.


Jacques Mayol

Capa do livro de Jacques Mayol

Enzo Maiorca (no filme, Enzo Molinari)

Jacques e Enzo

   A película é uma visão poética desta amizade e rivalidade, apresentando uma profunda paixão pelo mar, com belíssima fotografia, com tomadas filmadas principalmente pelas ilhas gregas e pela Sicília, e trilha sonora altamente onírica, como se houvesse sempre uma relação do mar com descanso, sonho, calma e paz. Foi escrito e dirigido por Luc Besson, e a grandiosidade da obra pode ser explicada em parte pela fascinação deste pelo mar, fato altamente relacionada à sua biografia. O diretor nasceu em Paris em 18 de março de 1959 e cresceu sob a ambiente aquático, tendo sido seus pais instrutores de mergulho; quis ser biólogo marinho e passou grande parte de sua juventude viajando por lugares paradisíacos pela antiga Iugoslávia, Grécia e Itália. Embora tenha ficado mais famoso por aqui por filmes como O Quinto Elemento, Joana D'Arc (aquele com Milla Jovovich) e, mais recentemente, Busca Implacável (muito bom filme com Liam Neeson), que ganhou uma continuação no último mês, o filme Imensidão Azul é sem dúvida sua obra-prima. Foi, ainda, o filme que lançou o grande ator Jean Reno, que nasceu em Casablanca (Marrocos), filho de pais espanhóis que fugiam da ditadura de Franco, e mudou-se para a França com 17 anos. O seu papel como Enzo é altamente cativante, apresentando o personagem da forma como conhecemos os italianos, e o seu contraste com o francês Jacques, interpretado por Jean-Marc Barr, é muito interessante.


Luc Besson

Jean Reno

Jean-Marc Barr

   O que é apresentado no filme de forma mais marcante é a expressão visual em vez da expressão racional (Luc Besson foi representante da corrente de cinegrafistas do Cinéma du look, movimento francês da década de 1980 que dava preferência ao estilo e ao espetáculo, e não à substância e à narrativa). O protagonista do filme é explicitamente o mar, e a sua referência Zen apoteótica o tornou um grande cult. A voz no filme é a do italiano, enquanto o francês parece apenas preencher o espaço do seu personagem; entretanto, a 'fala' deste é, visivelmente, em forma de subtexto, ou seja, o personagem é quase como um ser aquático, e as cenas em que aparece são tão longas quanto as que aparece o mar; é algo como se Jacques fosse não humano, mas um ser especial. A metáfora existente no fato de o filme tratar de alguém que é mergulhador livre, e sua referência à imensidão do mar, parece apontar para um homem cujas buscas pela compreensão de sua alma o leva a profundidades extraordinárias. Para Enzo, o mergulho livre é apenas um esporte, e ele busca incansavelmente ser tão somente o melhor no que faz; para Jacques, o mergulho livre tem um sentido mais metafísico (empurrando seu corpo ao limite, ele atinge uma clareza como espécie de transe no silêncio azul das profundezas).
   Sendo a fotografia tão onírica quanto a trilha sonora, há cenas tão sublimes que merecem ser mostradas aqui; inclusive, guardo muito de uma imagem do filme o ambiente perfeito para ouvir ou executar um Jazz suave, sempre diante do mar. A cena com Jean Reno ao piano é formidável. Para entender um pouco sobre o que estou tentando expressar, deixo um vídeo mais abaixo; tentem ouvir a música (Sleep Away, de Bob Acri) e visualizar esta cena do piano...

















 
   No trailer deixado abaixo do cartaz do filme, mais acima, há a passagem que explica a essência da tragédia final (obviamente, descrever como 'tragédia' é apenas uma das formas de interpretação). Na cena, Jacques é solicitado por sua namorada, Johana Baker (interpretada por Rosanna Arquette) a contar uma estória; ele conta a seguinte estória: "Você sabe o que se deve fazer para encontrar uma sereia? Você desce até o fundo do mar, onde a água não é mais azul, onde o céu é apenas uma lembrança. Você flutua lá em silêncio, e fica lá, e você decide que vai morrer por elas. Só então elas começam a vir. Elas vêm e o cumprimentam, e julgam o amor que tem por elas. Se for sincero, se for puro, elas ficam com você. E o levam para sempre." O final do filme é, portanto, altamente surreal, onírico, metafísico e transcendental! É belíssimo! E interessante que no final da versão americana, uma interpretação possível é apresentada: após descer às profundezas do oceano, Jacques é apresentado sobre a superfície de um mar sublime, sob nuvens que preenchem um céu num ambiente que metaforicamente só pode representar uma coisa: o paraíso. Vejam abaixo (só evitem assistir se vocês preferirem ver o filme antes de voltar a esta postagem).




   Este filme é, sem dúvida, uma ode à amizade, à beleza ao desconhecido e à busca pelo mais profundo sentido. É um deleite hipnoticamente belo e metafísico. A expressão visual do filme tem muitas referências que guardo até hoje e que representam muito do meu conceito de contemplação.
   Para finalizar, gostaria de deixar um trecho de um conto de um dos maiores autores russos que já existiu, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos: Anton Pavlovitch Tchekhov, que além de escritor era médico. Sempre que se lê uma peça literária em prosa, a observação de quem é que a conta é algo essencial; sempre se deve observar sob qual ponto de vista ou perspectiva se forma a imagem do narrador. Em um de seus contos, 'Gussev', Tchekhov fala de um marinheiro que morre no mar. O conto começa do ponto de vista do marinheiro, depois se transforma em longos trechos de diálogo entre ele e outro homem moribundo. Quando Gussev morre, a perspectiva muda para a dos marinheiros que o sepultam no mar e depois para a do peixe-piloto que vê seu corpo cair, depois para a do tubarão que vem investigar, até que, finalmente... Leiam vocês mesmos e tirem sua conclusões! O último parágrafo é uma das coisas mais bonitas que já pude ler em literatura clássica!

   "Afundou rapidamente. Terá chegado ao fundo? Até o fundo, dizem, é quase uma légua. Ao cabo de oito ou dez braças, começou a descer mais devagar, balançando de forma ritmada, como que hesitando, e, arrastado por uma corrente, deslizou mais para o lado do que para baixo.
    Encontrou então pelo caminho um cardume de peixes a que chamam pilotos. Ao verem o corpo escuro, os peixes estacaram petrificados e, todos juntos, deram meia-volta e desapareceram. Em menos de um minuto eles voltaram, velozes como flechas, e começaram a ziguezaguear na água em torno de Gussev.
    Depois disso, outro corpo escuro apareceu. Um tubarão. Nadou por debaixo de Gussev lenta e dignamente, sem demonstrar interesse, como se não o notasse; depois afundou um pouco mais, virou-se de barriga para cima, refestelando-se na água morna e transparente, e abriu preguiçosamente as mandíbulas com duas fileiras de dentes. Os peixes-pilotos estão encantados; param para ver o que virá a seguir. Depois de brincar um pouco com o corpo, o tubarão, indiferente, toca-o ligeiramente com os dentes e a lona se rasga em toda a extensão, da cabeça aos pés; um dos pesos se solta, assustando os pilotos, bate nas costelas do tubarão e vai rapidamente para o fundo.
    Lá em cima, neste momento, as nuvens se acumulam do lado onde o sol se põe; uma parece um arco do triunfo, outra um leão, uma terceira uma tesoura... De trás das nuvens um raio se projeta, largo e verde, e se estende até o meio do céu; pouco depois, outro raio, violeta, estende-se ao lado do verde; ao lado deste, um dourado, e depois um rosado. O céu tinge-se de um lilás suave. Olhando esse céu maravilhoso e como que encantado, o oceano fica, a princípio, aborrecido, mas pouco depois ele próprio adquire cores suaves, alegres, apaixonadas, difíceis de nomear na língua humana."

   No último parágrafo, não temos a impressão de estar vendo através dos olhos de Deus? :) Uma boa semana a todos!